Mastectomia Profilática Contralateral: quando está indicada?


Estudo único sobre carcinoma ductal in situ (CDIS) e a desnecessidade de mastectomias bilaterais¹                                                                                                                                              

 

Uma afirmação chama a atenção: a realização de mastectomias bilaterais (cirurgia para a retirada total das duas mamas) para o tratamento do CDIS (carcinoma ductal in situ ou intraductal) de mama unilateral mais que dobrou nos EUA na década passada. No último Encontro Anual da American Society of Breast Surgeons, a médica Megan E. Miller do Grupo do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, discorreu sobre o estudo que avaliou o risco para câncer de mama ocorrendo na mama oposta após o tratamento cirúrgico para um diagnóstico de CDIS de mama unilateral. Como foi apontado, há pouquíssimos estudos que examinaram este tipo de ocorrência. Segundo os pesquisadores há um baixo risco para câncer de mama contralateral após um CDIS tratado com cirurgia conservadora da mama (retirada da parte da mama contendo a lesão). Os dados apresentados são os seguintes:

  • 2759 pacientes tratados para CDIS de mama unilateral com cirurgia conservadora entre 1978 e 2011 com 127 pacientes desenvolvendo posteriormente um câncer na mama oposta num acompanhamento de quase 7 anos. As taxas para ocorrência do evento na mama oposta foram de 3,2% aos 5 anos e 6,4% aos 10 anos após tratamento inicial para o CDIS na mama.
  • Já a ocorrência de uma recidiva na mama tratada por CDIS foi 2 vezes mais comum que a ocorrência de um novo câncer na mama oposta. No estudo, este evento foi identificado em 7,8% aos 5 anos e em 14,5% aos 10 anos de acompanhamento após o tratamento inicial. 
  • As taxas de câncer na mama oposta se apresentaram baixas no estudo, independentemente da idade de diagnóstico, história familiar e características do CDIS da mama no momento do diagnóstico, mesmo em pacientes que apresentaram recidiva na mama já tratada. 
  • O estudo também informa, como já esperado com base em conhecimentos bem estabelecidos, que o uso de terapia endócrina (hormonioterapia) quando indicado e de radioterapia sobre a mama tratada reduzem o risco para recidivas locais e ocorrência de um novo câncer na mama oposta. 
  • A ocorrência de recidiva na mama tratada por CDIS foi menos frequente nas pacientes tratadas em períodos mais recentes: pacientes tratadas antes de 1998 apresentaram taxas de recidiva de 19,3 % e pacientes tratadas após 1999 tiveram taxas de recidiva de 12,9%, refletindo uma melhoria nos cuidados ao longo dos últimos anos. 
  • O estudo aponta para a idéia de que o diagnóstico de um CDIS de mama unilateral não deve induzir a uma mastectomia bilateral. A mastectomia bilateral deve ser uma opção de exceção e não uma rotina.

Finalizando, acho importante reforçar a recomendação de consenso da American Society of Breast Surgeons sobre as possíveis indicações da mastectomia contralateral profilática (CPM)²:        

  

A CPM deve ser considerada em pacientes de alto risco para câncer de mama contralateral:

  • Portadores de mutação patogênica documentada do gene BRCA,
  • Forte história familiar sem realização de testagem genética,
  • História de irradiação em manto da região do tórax antes dos 30 anos de idade (usada no tratamento de Linfomas de Hodgkin). 

A CPM poderá ser considerada em pacientes com risco menor para câncer de mama contralateral:

  • Pacientes que tem mutação em genes não BRCA como CHEK-2, PALB2, p53, CDIH,
  • Forte histórico familiar com BRCA negativo.                                                                                     

  

Referências Bibliográficas:

  1. ‘Unique’ DCIS Study: Double Mastectomy Not Needed – Medscape - May 02, 2017.
  2. Judy C. Boughey et al. Contralateral Prophylactic Mastectomy (CPM) Consensus Statement from American Society of Breast Surgeons: Data on CPM Outcomes and Risks. Ann Surg Oncol 2016; 23:3100-3105.


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